2.12.09

Caetaneando.*



No leãozinho e na moça a mesma bossa
A tropicália cinza, silêncio branco, rock colorido
De todos os três os trejeitos
De todas as dores o jeito
Me enche ainda
De vida
( e preguiça)
'alegria, alegria'
Ele vem susurrando...
Furtivo, atento, intenso: caetaneando!





_Caetano Veloso - "Leãozinho"

*Pra promoção da Livraria Saraiva.

6.11.09

Cedotardar

"Tenho no peito tanto medo, É cedo.
Minha mocidade arde, É tarde.
Se tens bom-senso ou juízo, Eu piso.
Se a sensatez você prefere, Me fere.
Vem aplacar esta loucura,Ou cura... "

Acontece que tudo funciona mesmo muito rápido por aqui.

Não meço o tempo justamente porque aos acontecimentos instantâneos é que devoto a minha energia e, mesmo dependente desta lógica absurda a que somos todos submetidos, faço o que posso para me gastar mais observando uma nuvem se desmanchando do que compondo filas de bancos. Por essas e outras é que não te asseguro que estarei parada amanhã nesta mesma hora e lugar, que ainda amanhã permanecerei sentada nessa mesa com o palpite de que já já te verei chegando. Não. Saiba que há muito tomei saber das coisas que posso perder por ser assim, tão paciente. A espera é um luxo ao qual não posso me render.

Deixo avisado também que nenhuma dor é definitiva, aprendi com a sucessão de desesperos. Um dia a gente acorda e ainda está ali, mas cicatrizado. E vivo. Mas acontece que tudo funciona mesmo muito rápido por aqui. Muito, muito rápido.

_Thais Gulin/Tom Zé - "Cedotardar"

4.11.09

Sobre um sábado de abril e outras memórias

"Me queira bem. Estou te querendo muito bem neste
minuto. Tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas
coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas. Fique feliz,
fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. Mesmo que a gente se perca, não
importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que
seja bom o que vier, para você, para mim."
(Caio Fernando Abreu)

É que ontem foi sábado, um igualzinho aquele outro perdido lá por abril. Tarde de sol e inquietude, um passeio por aí, sozinha. Prendi os cabelos pensativa e cautelosa, prestando atenção no que me acontecia pelos lados do coração. Saí carregando uma esperança enorme agarrada nos dedos, dessas capazes de mudar todas as peças de lugar. Andei e andei e andei, não sei dizer por quanto tempo ou por quais lugares, me ocupei tanto em lembrar cada detalhe teu, cada detalhe nosso, estampas ainda frescas na minha memória que agora arde. Te encontrar no parque, em qualquer um deles. Webcam ligada pra ver teu cabelo bagunçado. Visita inesperada. Passeio de carro para qualquer ou nenhum lugar. Música. Quando a sexta-feira chegava. Abraço de tchau no domingo. Briga boba. Beijo urgente. Risadas, muitas. Esperar a tua ligação de noite. Uma saudade provisória e alegrias definitivas.
Quando voltava pra casa, naquele sábado de abril, enquanto atravessava a rua eu te reconheci. E soube, com alguma estranheza, que era tarde para impedir aquele rosto pouco familiar mas já querido de ser parte de mim.
Ontem, depois de arranhar minhas recentes lembranças para que caíssem vivas aos meus pés, a passos lentos fiz o mesmo caminho daquela tarde, torcendo por um milagre: você na minha porta, pra começar tudo de novo.
A esquina vazia me doeu mais do que tudo o que você me disse, me desengasgou as lágrimas e as conclusões. De repente entendi que a minha espera, a partir de então, seria mais triste, mais longa, mais tardia. Seria a espera pelo esquecimento, pela cura, se quiser chamar assim. A espera pelo coração silenciado.

_Yiruma - "River Flows in you (Twilight Lullaby)"

5.10.09

Again and again and again


Ouvindo silverchair e procrastinando todos os 8 afazeres devidamente listados na minha parede penso em como me falta motivação. Sim, sou dessas pessoas clichê que só produzem enquanto apaixonadas pela tarefa. Quero dizer que não sei meramente cumprir obrigações por qualquer outro motivo senão a vontade pura e ansiosa, mas mesmo escrever me é difícil quando não tenho um assunto melhor do que minha própria frustração. O ruim é se repetir, o ruim é que me falta o susto, "um sopro de vida", diria Clarice. E vivo dias de mesmas cores e mesmos rostos, esperando que a semana que vem seja diferente, ou o mês que vem. 2010, quem sabe.
O peso de não gostar me faz sentir o tempo gasto ao invés de aproveitado. E nesse ritmo construo lembranças desimportantes, vivo coisas que não sonhei...Só não aprendi ainda a aceitar.
Leio sobre quem aos 20 anos já está MEGA realizado, abriu negócio, rodou o mundo, ganhou rios de dinheiro ou simplesmente se encontrou na vida. Invejinha. Será que um dia consigo, ao menos, manter um interesse sincero em alguma coisa por mais de 48 horas?

Peço desculpas pela falta de coesão deste texto, mas minha playlist adolescente de hoje me fez pensar em como aos 23 anos não sou nada do que um dia planejei. Só não sei (ainda) se isso é bom ou ruim.


_Silverchair - "Without you"

26.8.09

I dance because I'm free.



Era seu momento preferido.

As cortinas ainda fechadas, o burburinho da platéia ainda oculta, luzes apagadas ou quase. Respirava de um modo diferente, mais pesado talvez, como a pressentir as emoções que só antecipadas é que se distinguiam.
Verificava cada junta, os tecidos todos sendo percebidos, acionados, esticados...Em breve seriam uma coisa só.
Este nervosismo de quinze segundos valhia-lhe a existência, justificava o sacrifício do tempo, os pés em carne viva. Ela dançava pelo antes e, ali, centralizando um palco ainda inerte, entendia todos os seus porquês e mais do que isso, os amava.
A última olhadela para a coxia entulhada de gente, fantasias, cenário trazia a gostosa conclusão: era de verdade, era real.
Quem souber algum dia explicar o arrebatamento transeunte de cortinas se abrindo descobriu por si só o mistério maior da vida. Como a recuperar-se da eletricidade da surpresa, junto da música ela dançava, fazia os seus barulhos. Tilintava pra lá e pra cá sabendo-se assistida, mas dançar é inconsciente, como é insconsciente sorrir.
A lembrança que perdura é mesmo a sensação e só. Na memória o aplauso é já nostalgia, é amargo porque avisa: acabou.
Nunca vi mais feliz a bailarina do que ao desenrolar dos dedos os esparadrapos ensanguentados, maquiagem já opaca, ofegante. É para isso que vive, é para isso que veio ao mundo:? ver ecoar no teatro vazio a sua valsa, ver rodopiar dentro de si o sonho recente, fresco, realizado.


_Lauryn Hill & Tanya Blount - "His eye on the sparrow"

13.8.09

Da chuva que teima...

"Há uma estrada de pedra que passa na fazenda
É teu destino, é tua senda, onde nascem tuas canções...
As tempestades do tempo que marcam tua história,
Fogo que queima na memória e acende os corações"

Lá pelas duas e pouco tenho essas de pensar-me. Entendem?

Analiso o sorriso que mantenho vigoroso e tento mensurar sua sinceridade ou disfarce. É assim mesmo. Esticada ao sol, sentada ao 4ºou 5º degrau da mesma escada, todos os dias, percorro-me em vistoria do que até então me tornei. As surpresas que me aparecem são alegrias que anunciam que posso reinventar. Desconstruo-me e faço aleluias de pedaços meus, pra cima, pra cima, são as minhas cores caindo devagar, serenas. Sou eu espalhada pelo chão, assim é mais fácil entender.
Em 15 minutos já estou resgatada e cheia de conclusões que de nada me servem senão como lembrança do que há pouco fui. Levantando para viver o resto do mesmo dia, já ali sou outra e mesmo ali mudei. Para quê a tentativa de compreensão se estou sempre por um triz?


_Paula Fernandes & Almir Sater - "Jeito de Mato"

15.7.09

Só pra te encantar...


E eu fugia porque sempre me assustou sentir...
Das piadinhas e risadas, das longas conversas quase sempre pessoais como as de velhos conhecidos é que nasceu essa vontade esquisita que não me deixou mais em paz.
Você, alguma coisa entre um quase estranho e um melhor amigo, tão bonito nas suas gargalhadas espontâneas, foi quem me mostrou que a gente nunca sabe de que direção a felicidade virá. E mesmo naquela primeira tarde em que não me olhava nos olhos de jeito nenhum eu soube, ah eu soube que um abraço me faria muito mais...E fez.
Agora eu ando assim reticente, mais distraída do que o de costume ( é possível), carregando essa alegriazinha adolescente no bolso, o riso fácil, a saudade...Tem gente que chama de paixão. E a despeito do que dizem por aí, sempre preferi as histórias de começos improváveis, improvável como aliás tudo até agora tem sido: verdades de MSN, beijo na segunda-feira à noite, um dia melhor do que o outro, você não mais online, mas aqui, comigo.

_Curumin - "Mistério Stereo"